Fibromialgia: a dor que não passa

A sensação é de ter sido atropelada: dói tudo e há um cansaço sem fim. E, pior, sob olhares de desconfiança por não ter “cara de doente” e os exames darem resultado normal. Mas é possível encontrar alívio para a fibromialgia, que ataca sobretudo as mulheres. O exercício é indispensável para a recuperação.

Dar uma volta no shopping, empurrar um carrinho de supermercado, passear no parque e outras atividades triviais podem virar uma tortura para quem tem fibromialgia: 2,5% da população, na proporção de um homem para cada oito mulheres, a maioria na faixa entre 25 e 55 anos de idade. Ela se manifesta como uma dor persistente em várias partes do corpo. “Os atingidos não conseguem precisar o local, dizem que ‘dói tudo’”, informa a reumatologista Evelin Goldenberg, autora do livro O Coração Sente, o Corpo Dói (Editora Atheneu), que fala sobre essa doença complexa e pouco conhecida. Nos casos mais severos, até os fios de cabelo doem. Nem abraço é tolerado. Fora isso, a pessoa sente um cansaço inexplicável e um conjunto de sintomas – daí ser considerada uma síndrome – que inclui alterações no sono, rigidez matinal, dores de cabeça e depressão. E o sofrimento se arrasta. Um estudo da Sociedade Brasileira de Reumatologia com 500 mulheres, divulgado em 2011, concluiu que as pacientes demoram, em média, dois anos e meio para buscar auxílio médico e cinco anos até obter o alívio de suas queixas. Durante todo esse tempo, peregrinam por consultórios, fazem dezenas de exames e se submetem a tratamentos ineficazes.

O que dificulta o diagnóstico é que os exames de sangue e de imagem (raios X, ressonância magnética) dão resultado normal ou trazem achados que não esclarecem as queixas. Só métodos de última geração empregados em centros de pesquisa, como o pet scan (tomografia por emissão de pósitrons), que exibe o cérebro em funcionamento, são capazes de identificar alterações nos mecanismos cerebrais envolvidos na percepção da dor. E, como se não bastasse, a pessoa não tem “cara de dor”, isto é, não fica pálida e suando frio como quem é surpreendido por cólica renal. Por isso, familiares e amigos às vezes não levam a sério as queixas da vítima, desconfiam de que está querendo chamar a atenção e a apelidam de Maria das Dores. O diagnóstico traz alívio para quem teve os sintomas menosprezados: “Saber que não sofre de um distúrbio raro e fatal, que não corre o risco de ficar inválida e, principalmente, que não está louca faz toda a diferença”, diz a reumatologista. Embora a síndrome não tenha cura, o tratamento adequado mantém os sintomas sob controle.

Sensibilidade acentuada
A dor da fibromialgia é diferente da provocada por corte e queimadura. Não decorre de lesão nem de inflamação em alguma parte do corpo. Mas de amplificação da sensibilidade dolorosa, isto é, o portador sente mais dor do que o normal porque os mecanismos envolvidos no processamento da dor estão alterados. Há um excesso de substância P (do inglês pain, “dor”), o neurotransmissor que leva ao cérebro as informações dolorosas, enquanto analgésicos naturais, como a serotonina, estão em baixa. Daí decorre um aumento na percepção de dor. “O sistema nervoso vai ficando tão sensível que passa a responder de forma exagerada ao menor estímulo”, explica Evelin Goldenberg. Quem tem parentes de primeiro grau com a doença corre mais risco de apresentá-la. As crises são deflagradas especialmente por stress emocional: perda de uma pessoa querida, separação, hospitalização prolongada. Traumas físicos (cirurgias, acidentes), processos infecciosos, perdas prolongadas de sono e grandes flutuações hormonais são outros possíveis gatilhos. A inatividade física também contribui para que a fibromialgia dê as caras e o hábito de fumar tende a agravar a dor.

Pondo ordem na casa
Nem toda dor crônica é sinal de fibromialgia. Os exames complementares ajudam a excluir doenças inflamatórias (bursite, por exemplo), degenerativas (caso da hérnia de disco) e metabólicas (como hipotiroidismo), que podem provocar sintomas semelhantes. Porém o mais importante é o exame físico, associado à história médica. Até 2010, o diagnóstico era positivo quando, dos 18 pontos espalhados pelo corpo (tender points) pressionados pelo médico na consulta, pelo menos 11 doíam. O último Consenso Brasileiro de Fibromialgia, assinado por 27 especialistas naquele ano, diz que, além de observar a dor, é preciso avaliar o estado físico e emocional do paciente, bem como a presença de sintomas como fadiga, sono não reparador e perda de memória, por pelo menos três meses. Com a adoção dos novos critérios, a incidência no sexo masculino começou a subir.

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Por: Cristina Nabuco
Fonte: Boa Forma

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